"É a vida." Eles dizem.

by - 12:49



Estava sentada num banco de praça lendo um livro quando a ouvi chorar.
Num primeiro momento não dei muita importância, levantei meus olhos quando li pela terceira vez a mesma página.
Ela estava a minha frente, com uma mochila no colo e de cabeça baixa.
Seus ombros balançavam com o choro e me perguntei qual seria o motivo.
Não a conhecia então gritei um "Ei, garota!" para ter sua atenção.
Seus olhos me encararam por um momento até voltarem para suas mãos cruzadas.
Com pouca vontade mas muita curiosidade, me levantei, guardei o livro e me sentei ao seu lado.
Perguntei o porque do choro, ela balançou a cabeça, negando em falar.
Fiquei minutos, talvez horas, a observando até seus olhos, novamente, me encararem e demonstrarem surpresa, talvez por eu ainda estar ali.
"Foi um garoto" ela disse baixo.
"E o que ele te fez?"
"Terminou comigo."
Tentei controlar, mas não consegui segurar a gargalhada. Quantos anos ela deveria ter? Dezesseis? Dezessete, no máximo.
Como garotas dessa idade choram por garotos?
"Não é o fim do mundo!"
E eu só não percebi que, para ela era.
Era o fim do mundo.
Ela não estava chorando por causa de um garoto. Ela estava chorando por ter criado expectativas e ter sido desapontada. Ter sido quebrada em milhares de pedaços que, sabe se lá quando, se colariam de novo.
E entendi o porquê do choro.
Você espera que algo dê certo. Você espera não se decepcionar. Você espera não chorar. Mas algumas pessoas não sabem amar, não sabem não magoar. O mundo é cruel.
Presenciei o sofrimento daquela garota como se fosse o meu. Tão jovem e tão triste, tão desolada.
"É a vida." disse enquanto a observava secar o rosto com a manga do moletom.
"Não, são as pessoas."
Ela se levantou e pude ver melhor seu rosto, eu a conhecia, ela morava no quinto andar, um acima do meu.
No dia seguinte, ela se jogou da janela do prédio, ninguém sabia o que tinha acontecido, bem, nada é fácil de entender.

"É a vida." Ouvi dizerem durante aquela semana.
"Não, são as pessoas."

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